A casa que
esperava
Naquela manhã, a cidade parecia feita de lugares onde alguém já havia estado, mas ninguém se lembrava de quem.
Havia, na esquina da rua antiga, uma casa de portas azuis. Não era uma construção especialmente bonita. A tinta descascava junto às janelas, as grades guardavam marcas de chuva e o pequeno jardim crescera sem pedir licença. Ainda assim, era ali que todas as tardes pareciam demorar um pouco mais.
Clara passava em frente àquela casa desde menina. Conhecia o som do portão ao vento, o jeito como a luz tocava o terceiro degrau e até o cheiro de terra molhada depois das seis. Nunca vira ninguém abrir a porta.
Um dia, por motivo que não saberia explicar, parou. Havia um envelope de papel creme preso à grade, sem selo, sem destinatário, sem nenhuma palavra do lado de fora. O vento o movia de leve, como se fosse uma mão pedindo atenção.
Ela demorou antes de tocá-lo. Pensou em seguir caminho, em chegar ao trabalho, em conservar a rotina que aprendera a chamar de vida. Mas certas perguntas têm paciência, e aquela esperava por ela havia muito tempo.
Abriu o envelope. Dentro, uma única folha dobrada trazia uma frase escrita com cuidado:
“Existem portas que só se abrem quando deixamos de procurar as chaves.”
Clara leu uma vez. Depois outra. Do outro lado do portão, alguma coisa fez um ruído baixo, quase familiar. Pela primeira vez, teve a impressão de que a casa também a reconhecia.